quarta-feira, 19 de junho de 2013

Exposição de Fotografia - Mateus: (Re)cantos e Encantos... - Catálogo (I parte)









Mensagem do Presidente da Junta de Freguesia de Mateus

A exposição “Mateus – (re) cantos e encantos” que integrámos entre os vários eventos que fazem parte da 1ª Quinzena Cultural de Mateus, resultou de um convite feito ao mestre em História Contemporânea, Dr. António Adérito Alves Conde.
Trata-se de um “filho da terra” que tem investigado o passado da nossa freguesia e possui um largo repositório fotográfico e documental sobre a freguesia de Mateus. É fundador e administrador de vários espaços nas redes sociais que visam dar a conhecer, à escala global, o passado e o presente de Mateus e pretende servir de espaço de diálogo entre os mateusenses no exterior.
  Acredito que este evento cultural ora realizado pela J. F. de Mateus poderá ter o mérito de projectar a nossa freguesia à escala local e regional e, estou certo, será uma iniciativa que interessará aprofundar nos seus objectivos, nomeadamente culturais, e susceptível de ganhar uma periodicidade anual.             
            Contamos, para isso, com o apoio da população da nossa freguesia e da nossa região a quem apelamos à fruição e participação no vasto conjunto de eventos que fazem parte desta iniciativa.
                                                                Artur Ribeiro de Carvalho                                                   

                                                           
 Biografia do autor
. Nascido na freguesia de Adoufe em 1957, foi criado desde os cinco anos de idade em Mateus (Lugar de Abambres) tendo frequentado as escolas da Rechã e Abambres onde foi aluno do professor Raul Botelho, personalidade que em muito marcou a sua orientação e formação académica.
. Frequentou, como trabalhador-estudante, a Faculdade de Letras da Universidade do Porto onde concluiu a licenciatura em História e o mestrado em História Contemporânea com a dissertação “João Evangelista Vila Real – uma biografia para além do enredo camiliano”; trata-se de uma biografia histórica sobre uma figura natural da Samardã que é a personagem principal de uma novela de Camilo Castelo Branco.
. É técnico superior do município de Vila Nova de Gaia onde desenvolve trabalho na Biblioteca Pública, no âmbito da história local.
. Tem participado em congressos, seminários, jornadas e eventos culturais, com comunicações na área da história e da biografia histórica, alguns deles publicados.
. É investigador na área da história local, da história contemporânea e da biografia histórica tendo em mão vários projectos de investigação, entre outros, sobre a freguesia de Mateus e algumas temáticas da história local vila-realense. 
. É associado e dirigente associativo em algumas instituições da área cultural.
.Tem mantido uma ligação estreita e permanente com a freguesia de Mateus onde cresceu conhecendo, por experiência própria, a dura realidade da actividade agrícola dos praceiros e tendeiros.
. Fundou e administra, nas redes sociais, espaços que visam dar a conhecer a história da freguesia de Mateus e promover a aproximação dos mateusenses na diáspora.

Mensagem do autor

Com a exposição que ora se apresenta, que titulei “Mateus – (re() cantos e encantos”, pretendo partilhar, com os meus conterrâneos e visitantes, um conjunto de imagens recolhidas, na maioria, nas manhãs domingueiras,  pelos arruamentos e antigos caminhos vicinais da nossa freguesia.  A motivação para as minhas deambulações matinais teve como objectivos imediatos a inventariação e reavaliação do(s) património(s) da nossa freguesia, a memória dos lugares da infância e juventude (onde corria, por curiosidade, à procura dos ninhos, ou na recolecção de “frades” ou medronhos por Outeiro de Lobos ou Lamas de Monte), o diálogo com pessoas que conservam memórias da história e memória da freguesia, o melhor conhecimento do espaço geográfico, tudo isto aliado ao compulsivo desejo de caminhar.
A recolha de imagens, sempre presente nos meus itinerários, tem tido, até ao momento, um sentido mais instrumental e funcional, de apoio às minhas pesquisas históricas, do que propriamente artístico. Isto por uma questão de racionalização do tempo, esse bem escasso que nem sempre deixa transbordar a sensibilidade e a poesia que existe dentro de nós.
 Assim, de entre o vasto repositório de imagens que possuímos, dos vários lugares da nossa freguesia, foi possível destacar um conjunto de cerca de 100 imagens, que abrangem temáticas como as antigas casas senhoriais, os brasões, o património religioso, os edifícios públicos, as novas urbanizações, o património vernacular (espigueiros, fontes, casa popular, etc), a arqueologia industrial, as curiosidades, as vinhas (não fosse Mateus uma terra de bons vinhos), a neve em Mateus, as vistas dos diferentes lugares e algumas curiosidades.
No “curtíssimo” espaço de um centenar de imagens procurámos traçar um roteiro cultural “possível”, do património de Mateus, que poderíamos recomendar ao visitante, com secreto orgulho pela nossa riqueza e variedade patrimonial, não deixando de lhe recomendar os bons espaços de alojamento ou de referência gastronómica.
Isto porque a nossa terra sempre soube receber bem os visitantes!

Apraz-nos registar que a nossa freguesia, e particularmente o nome MATEUS e a imagem do nosso ex-libris (o solar de Mateus) são conhecidos em todo o mundo. Nesse particular, Mateus é, para nós, uma espécie de “Património da Humanidade”, o que muito nos honra, como nos honra o facto de esse espaço magnífico atrair a Mateus a visita de milhares de turistas e de participantes nas dezenas de eventos de renome que, nas últimas décadas, aqui têm tido lugar.
Contudo a freguesia de Mateus tem outros patrimónios, nomeadamente o de natureza imaterial, como sejam as nossas festas e procissões, o nosso “bacalhau de Abambres”, o nosso Carnaval dos vários lugares da freguesia, o nosso “Enterro do Entrudo”, o nosso cancioneiro, a gastronomia nascida nas antigas tascas, as nossas lendas, e em sem-número de valores de natureza etnográfica.
São esses patrimónios as verdadeiras marcas da nossa identidade cultural, que urge preservar, estudar, conhecer e dar a conhecer (com contido orgulho) a quem chega a Mateus em visita à Casa de Mateus, aos restaurantes de renome da freguesia, ou às unidades hoteleiras.
Há uma outra imagem da freguesia que, a partir de agora, temos de mostrar ao visitante. Nesse sentido esta exposição pretende ser a pedra de toque para essa “ponte” que urge criar.
Uma palavra final para enaltecer o alto significado desta I Quinzena Cultural de Mateus, promovida pela nossa autarquia, que em boa verdade, pela diversificação de eventos, é o primeiro grande evento cultural de que há memória em Mateus. Oxalá ele tenha a maior adesão de todos os mateusenses, assuma um carácter de continuidade e que os habitantes de Mateus o sintam como um evento feito por eles e para eles, independentemente da natureza da entidade que o organiza.  
Com saudações pessoais do vizinho,                                  
                                        António Adérito Alves Conde


                                                       
Painéis de Imagens



                                                                
 







Data: 20.06.2013
Concepção e autoria: António Conde

segunda-feira, 17 de junho de 2013

As alminhas de Nossa Senhora da Livração, no lugar de Fundo de Vila (Mateus, Vila Real)


  1. Localização 

Situava-se no lugar de Fundo de Vila este pequeno oratório de arquitectura vernacular, dedicado às almas do Purgatório, bem conhecido das gerações mais velhas de avamorenses.
A exemplo do que era frequente em outros locais estava estrategicamente colocado numa encruzilhada[1] de ruas: a Rua de Fundo de Vila, que era a antiga carreira, ou caminho, que na Idade Média ia do Fundo de Vila ao ribeiro da Levandeira, no Lugar dos Arões e depois seguia para a Redonda e o caminho da Vila, que era a antiga carreira que do largo da Baralha, passava ao Fundo de Vila, a  Marvão, atravessava o vale da Levandeira do lado direito do rio da Levandeira, entre o monte, as vinhas e os campos cultivados e seguia até ao topo da Quinta das Regadas, a sul do actual campo de Abambres. Aí entroncava com um caminho que, vindo do lugar da Preguiça, se dirigia, pelo fundo do lugar do Troviscal e Pousada, até ao lugar de Pé de Cavalo e atravessava o rio Corgo, a vau, em Codessais, junto à quinta que actualmente pertence à família Sarmento. Era utilizado por carreiros que atravessavam o rio, nesse lugar, para ir carregar uvas naquela quinta[2]. O dito  caminho da Vila, ou o que dele resta[3],  atravessa hoje  o caminho de ferro junto ao marco de demarcação das freguesia de Mateus, S. Pedro e Nª Sª da Conceição e segue, a Sul, do campo de futebol do Abambres Sport Clube até à Quinta das Regadas.       


                                                   Alminhas do Fundo de Vila conhecidas por Senhora da Livração                                      

2. O Culto das almas do Purgatório em Portugal e a construção de alminhas


Foi no Concílio de Trento e na congregação geral do mesmo, de 15 de Novembro de 1563, que se reafirmou, como dogma, a existência do Purgatório. Em período de Contra-Reforma caberá aos jesuítas e aos carmelitas, entre outros, a difusão destas decisões tridentinas. Fundaram-se confrarias das almas, sobre invocação de S. Gregório Magno[4] ou da Virgem. Em breve a decoração das capelas dessas confrarias convocou uma gramática onde os quadros do Purgatório estão iconograficamente presentes.


As representações têm muitos pontos em comum: ao fundo do retábulo representa-se a fogueira expurgatória e, entre as chamas, representam-se os condenados em tronco nu, uns em gestos de súplica, outros a serem arrancados ao fogo, pelos anjos; no alto estão representados, por entre as nuvens do céu, Nossa Senhora e os Santos intercedendo junto de Cristo, colocado ao centro, pela libertação das almas. Em Portugal e em particular no norte a representação artística do Purgatório intensifica-se no final do séc. XVI tornando-se muito popular na iconografia religiosa. Uma das figuras mais representadas nas alminhas portuguesas é a do arcanjo S. Miguel com as balanças. Isto tem a ver com a função que a tradição atribui a S. Miguel de condutor de almas para o Paraíso. As Irmandades ou as Confrarias da Almas vão-se divulgando um pouco por toda a parte. Nas igrejas multiplicam-se os quadros do Purgatório e em breve se difundem pelos oratórios presentes ao ar livre. A maior parte das vezes são-lhe acrescentadas legendas em que se imploram orações pelos mortos. Numas alminhas do século XVII, cravadas numa casa em Alvarães (Viana do Castelo) há a seguinte inscrição: “LEMBRAVOS. DAS ALMAS DO/PURGATÓRIO CO HVM PADRE/NOSSO E HVA AVE MARIA/ – 1669 -.


No Portugal de Setecentos são cada vez mais vulgares as alminhas representadas em nichos presentes em edifícios, muros ou pequenos oratórios. Nos centros urbanos vulgarizam-se os painéis de azulejos dedicados ao Purgatório.


Com o andar dos séculos as alminhas passam também a servir para recordar a memória de desastres ou mortes violentas (como foi o caso dos mortos pelas tropas napoleónicas) implorando a piedade e a oração pelos que aí tombaram. 


Registe-se o caso dos mortos pelas tropas napoleónicas nas alminhas de Arrifana (Santa Maria da Feira) ou do desastre da Ponte das Barcas, na Ribeira do Porto, cuja escultura é da autoria de Teixeira Lopes (Pai) e onde, ainda hoje, se acendeu velas. Em Vila Nova de Gaia, na zona ribeirinha existe o cruzeiro das Escadas da Boa Passagem, outrora um dos lugares de atravessamento do Douro, onde uma inscrição que recorda a quem atravessa o Douro o seguinte: “Considera pecador a conta que hás-de dar ao Senhor e lembra-te das almas do Purgatório”.


Alminhas do Fundo de Vila - pormenor da escada


 
Alminhas do Fundo de Vila (o oratório visto de lado)






De acordo com Olinda Rodrigues (op. cit, p. 96) a devoção das alminhas terá  “partido das cidades (…) espalhando-se por todas as províncias do Reino, irradiando em todas as direcções tanto pelo interior como pelo litoral, disseminação que acompanhou a proliferação dos pintores dos painéis chamados populares”.
 A mesma autora refere que Santo António é “um santo intercessor das almas, e como tal, com bastante relevância pictórica nos painéis de Alminhas”, nomeadamente em Lisboa (op. cit. p. 103). Faz também referência a outros figuras  intercessoras como Nossa Senhora do Carmo, conhecida como a Virgem do Escapulário, o arcanjo S. Miguel – Juiz e defensor das almas, como uma das personagens mais frequentes nos painéis das alminhas de Portugal.
A construção de alminhas tem sido uma constante ao longo dos séculos, havendo,  todavia, épocas de afrouxamento de devoção, em períodos mais marcados pelo anticlericalismo. Em outros períodos houve movimentos tendo em vista a sua inventariação, preservação  e reconstrução de oratórios abandonados, alguns deles patrocinados por homens da cultura como Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Rebelo da Silva, etc.
 
3. A defesa do património em geral e das alminhas em particular
Num passado recente a salvaguarda desta e de outras formas de património tem sido defendida pela Carta de Atenas (1931), Carta de Veneza (1964), Declaração de Amesterdão (1975), Convenção de Granada (1985), ou pela legislação nacional, nomeadamente a Lei nº 107/2001. Outros documentos, como a carta de Cracóvia, tratam da questão da autenticidade na recuperação dos monumentos, defendendo um equilíbrio na conservação e preservação dos monumentos defendendo intervenções que não desvirtuem totalmente o monumento e preservem a memória artística do mesmo. 
 
Alminhas do Fundo de Vila - o peto das esmolas
 3.1. O papel da diocese na defesa deste património
Em Vila Real, o bispo Joaquim Gonçalves, em documento datado de 27 de Março de 2000, lançou um apelo aos párocos, às Câmaras Municipais e às Juntas de Freguesia da diocese, para que a nível local se fotografasse e se procedesse à classificação e inventariação dos cruzeiros, calvários e nichos referindo algumas regras para os casos em que seja necessário a sua recuperação. Isto depois de considerar que esses monumentos “constituem um valioso património religioso, artístico e cultural”. Faz ainda referência a “casos de desleixo, de crassa ignorância na sua recuperação ou até de pura e simples destruição deste património que a todos nós diz respeito”.
Apesar desta preocupação que registámos com agrado, temos de confessar que, infelizmente, em relação à freguesia de Mateus, ela não foi eficaz, a avaliar pelo estado de destruição e deterioração que atingiu este importante elemento do nosso património, nos últimos 25 anos.
3.2. Situação das alminhas da freguesia de Mateus
Na freguesia de Mateus este património conheceu nas últimas décadas uma situação de incúria e desleixo de que resultaram algumas perdas irreversíveis; felizmente há alguns casos de sucesso e existe, sobretudo, uma maior sensibilização. Eis os exemplos:
. Alminhas de Nossa Senhora da Livração (séc. XVIII) – desmontadas por ordem do município de Vila Real e do presidente do executivo mateusense, Sr. Eduardo Viana, permaneceram no meio de uma vinha, durante mais de duas décadas, tendo-se perdido, irremediavelmente, alguns dos seus elementos, nomeadamente as pinturas[5]. É de registar o silêncio da autoridade religiosa de Mateus, nesse período. 
. Alminhas do Lugar das Quartas – não possuindo já o painel pintado, nada foi feito para a sua recuperação.
Alminhas das Quartas
 . Alminhas do caminho de Outeiro de Lobos – aquando da construção da estrada, no final dos anos 80, foram praticamente destruídas;  restou só um dos elementos que a piedade popular sinalizou com flores. Também aqui se verificou a maior passividade por parte da autarquia mateusense e a autoridade religiosa local.
Alminhas de Outeiro de Lobos (depois da destruição)

.Alminhas que terão existido no lugar no lugar da Redonda – assistiu-se ao seu desaparecimento em data que não podemos precisar.
. Alminhas que existiram num muro no lugar do Fundo de Vila (séc. XX – 1920) – terão sido destruídas aquando da construção dos muros das habitações anexas, sem qualquer reacção por parte da autarquia e da autoridade religiosa. Estas alminhas, de construção muito tosca, foram construídas no sítio onde se deu uma morte, no ano de 1919, no complicado período da restauração monárquica que ficou conhecido por Monarquia do Norte, ou, popularmente, por Traulitada[6].
Alminhas do lugar de S. Martinho  (séc. XIX – 1838) – este é, felizmente, um caso de sucesso, que apraz registar; porém a sua restauração foi feita por particulares e não pelos poderes públicos.


                                                            Alminhas de S. Martinho (antes da recuperação)
 

Alminhas de S. Martinho (depois da recuperação)
. Alminhas junto ao Bairro dos Prazeres (séc. XX – 1900) – estão localizadas no limite da freguesia de Mateus. Já não possuem o painel pintado.
Alminhas junto ao Bairro de Nª Sª dos Prazeres



4. As alminhas da Senhora da Livração

O monumento era todo em granito e estava adossado à parede da vinha do Sr. Manuel Barrias, então propriedade da Casa de Urros. Era constituído por dois degraus, em pedra, montados em cima da parede saliente. No segundo degrau assentavam dois pilares que suportavam um arco em pedra com rebordo que assentava sobre os pilares. O arco era encimado por uma cruz em pedra. Na profundidade era constituído por uma pedra em L em cujo retábulo estavam pintadas, directamente na pedra, os condenados erguendo os braços para o Céu pedindo clemência ou em gesto de oração. Muito provavelmente teria figuras de anjos, que junto das labaredas, resgatam as almas já purificadas. Contudo, não temos lembrança deste pormenor e os restos de pintura não dão para perceber da sua existência; até podia dar-se o caso de não ter anjos, a exemplo do que acontece com as alminhas da Rua da Guia abaixo retratadas. Em cima, como figura celeste protectora, havia uma imagem de Cristo Cruxificado que a imagem aqui publicada documenta. Não temos conhecimento pessoal ou imagens de outras figuras intercessoras. O quadro estava separado do exterior por uma grade de ferro, com rede. Abaixo do retábulo abria-se a ranhura da caixa das esmolas ou peto; estas destinavam-se a pagar as despesas da lamparina ou para mandar dizer missas pelas almas. Segundo ligeira recordação pessoal e testemunhas locais havia inscrições com letras provavelmente abreviadas do tipo O(rai) P(or) N(ós). P(ai) N(osso) A(vé) M(aria). Trata-se de um boa obra de canteiro, provavelmente do séc. XVIII.


4.1. O culto das almas e o nascimento do culto a Nossa Senhora da Livração


Embora não tenhamos dúvidas de que se trata de um monumento dedicado ao culto das almas do Purgatório existia um culto popular a Nossa Senhora da Livração, o qual, de secundário, se tornou no principal culto deste oratório. É uma nota curiosa e um testemunho da singularidade deste monumento por se ter dado uma apropriação de um culto pelo outro ou uma sobreposição de cultos em que o culto posterior apagou a notoriedade do primeiro culto. Provavelmente o culto oficial era o das almas do Purgatório e havia um culto popular e não-oficial a Nossa Senhora da Livração. Da nossa parte sempre ouvimos falar do culto à Virgem da Livração, facto que é corroborado pelas pessoas mais velhas do lugar[7]
Quando e porquê terá nascido este culto?
 Este culto terá preenchido todo o século XX e deverá remontar mesmo ao século XIX, já que, pelos menos, quatro a cinco gerações de vizinhos o conheceram ou ouviram falar dele. É da nossa lembrança, nas décadas de 60 e 70, a presença assídua de velas ou lamparinas de azeite, colocadas na base do monumento, em cumprimento de promessas. Temos informações do passado, ainda hoje confirmadas pelas gerações mais velhas, de que as orações e as promessas feitas à Senhora da Livração eram praticadas por futuras parturientes ou familiares pedindo a protecção da Virgem para que tivessem um bom parto. Em muitas situações havia também promessas feitas por proprietários de animais domésticos em situações de partos difíceis (de vacas, ovelhas, porcos); acendiam uma vela à Virgem já que, segundo diziam “Tirante a alma e o feitio, são como nós [humanos]”. Trata-se, a nosso ver, da criação e difusão de um culto popular, que oficialmente, anda associado a Nossa Senhora do Leite, a Nossa Senhora do Ó, Nossa Senhora da Luz e a Nossa Senhora do Bom Parto, no caso dos humanos e que no caso dos animais anda oficialmente associado a Santo Antão ou Santo António, considerados santos protectores dos animais.
Provavelmente haveria algum elemento pictórico, no conjunto das alminhas, que o povo associou à Virgem, na versão de Nossa Senhora do Bom Parto ou na versão popular de Nossa Senhora da Livração. Refira-se que o termo livração tem a ver com o sucesso do parto, derivando de livrar ou livras[8].



                             Alminhas de Nossa Senhora da Livração 
  (Alguns elementos pictóricos  em que são mostradas as cabeças dos pecadores  
e as labaredas do Purgatório)
 
4.2.  Que futuro, para as alminhas da Senhora da Livração? 
 
Perante o estado de degradação e do sério risco que corriam estas alminhas, abandonadas à sua sorte, num terreno particular, e antes que levassem descaminho, o actual Executivo da Junta de Freguesia de Mateus, resolveu remover as alminhas da Senhora da Livração para lugar seguro. Entretanto identificou a localização do elemento em causa (a cruz), recolheu informações sobre as alminhas junto de pessoas mais velhas e conseguiu recolher imagens antigas que retratam o oratório.
Temos acompanhado com todo o interesse este processo, por dever da nossa formação de estudioso do passado, por dever da nossa condição de morador do lugar de Fundo de Vila e por dever de cidadão empenhado na preservação do património.
Por isso, estamos convictos que, dentro em breve, as alminhas de Nossa Senhora da Livração voltarão, com uma renovação que não destoe do original,  ao sítio onde foram construídas há mais de dois séculos, atentas as exigências que a nova configuração dos arruamentos no lugar do Fundo de Vila possa configurar.

Esperamos, de igual modo, que em relação  às rudimentares alminhas ou nicho, destruídos no lugar do Fundo de Vila, no caminho para o Vale da Levadeira, que a autarquia de Mateus, em substituição do destruído, no mesmo local ou no início da rua, no gaveto com a Rua D. Maria de Lurdes Amaral, mande afixar um memorial que recorde a morte de Alexandre da Costa, assassinado por uma patrulha da Guarda Republicana em 21 (') de Janeiro de 1919, num período conturbado na história do nosso País.            

           
5. Oração a Nossa Senhora do Bom Parto
No âmbito da temática do parto e da intercessão divina pelo sucesso do parto, recolhemos a seguinte oração:

“Ó Maria Santíssima, vós,
por um privilégio especial de Deus,
fostes isenta da mancha do pecado original,
e devido a este privilégio
não sofrestes os incómodos da maternidade,
nem ao tempo da gravidez e nem no parto;
mas compreendeis perfeitamente
as angústias e aflições das pobres mães
que esperam um filho,
especialmente nas incertezas do sucesso
ou insucesso do parto.
Olhai para mim, vossa serva,
que na aproximação do parto,
sofro angústias e incertezas.
Dai-me a graça de ter um parto feliz.
Fazei que meu bebé nasça com saúde,
forte e perfeito.
Eu vos prometo orientar meu filho
sempre pelo caminho certo,
o caminho que o vosso Filho, Jesus,
traçou para todos os homens,
o caminho do bem.
Virgem, Mãe do Menino Jesus,
agora me sinto mais calma
e mais tranquila porque já sinto
a vossa maternal protecção.
Nossa Senhora do Bom Parto,
rogai por mim!”

Alminhas nos lugares vizinhos da nossa freguesia:

                                                   Alminhas na Rua da Guia lugar que,  até 1863, 
                               pertenceu à freguesia de Mateus)

                                                                      Outras  Alminhas na Rua da Guia

Alminhas de Arroios (pormenor do santo intercessor)

Alminhas de Arroios - pormenor dos condenados  




Nota Final:


A ideia da elaboração deste pequeno estudo dedicado às alminhas da Levandeira e, indirectamente, a todas as alminhas da nossa freguesia, visou fazer uma evocação deste elemento do nosso património cultural que, durante séculos, foi um lugar de devoção e de referência cultural para os habitantes da nossa freguesia.
Esperamos que, em breve, deste “montão de pedras” que alguns queriam condenar à ruína, renasçam as alminhas do Fundo de Vila, da Senhora da Livração, para que as gerações mais velhas recordem as memórias da velha lamparina de ocasião, que iluminava as noites escuras, e as gerações mais novas conheçam este renovado marco identitário da nossa freguesia, quer na sua vertente de património material (o monumento), quer do património imaterial (a lenda e o culto).
 A segunda vertente, a da  história do culto a Nossa Senhora da Livração, fica aqui cumprida, para que não se perca da memória. A primeira vertente há-de ser uma realidade.






Bibliografia:
. Chambino, Eddy (2002) - O culto das almas expresso na religião popular: uma viagem pelas crenças e superstições em torno das almas”, Lisboa, FCSH-UNL, Tese de Licenciatura.
. Correia, Virgílio (1937) -  Etnografia artística.
. Gonçalves, Flávio (1959)- Os Painéis do Purgatório e as Origens da “Alminhas” Populares, Matosinhos, Boletim da Biblioteca Pública Municipal de  Matosinhos, Nº 6, Junho, 1959, pp. 71-107.
. Rodrigues, Olinda Maria de Jesus  (2010) – As alminhas em Portugal e a devolução da memória. Estudo, recuperação e conservação, Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, (mestrado em Arte, património e teoria do restauro)
Fontes orais:
. Sr. Luís Barrias (anos 70)
. Sr. José Alves Facote
. Sr. Júlio Vieira
. outros (não identificados)
 
Webgrafia:
. http://diocese-vilareal.org/cultura/docshtm   (visualizado em 19.03.2004) - carta do Bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves, datada de 27.03.2000

Créditos fotográficos: António Conde
                                                                                   ***
                                       
* António Adérito Alves Conde (Junho de 2013)
Texto escrito, por opção do autor, em desacordo com o novo acordo ortográfico.
Este trabalho é parte integrante do projecto “S. Martinho de Mateus – história, memória, património, da autoria de António Adérito Alves Conde
  NOTAS: 

[1] Segundo Flávio Gonçalves  a tradição popular do noroeste da Península situa nas encruzilhadas o centro de reunião dos entes sobrenaturais.  É ali que se juntam as bruxas com o diabo e bailam as feiticeiras.  No século VI, S. Martinho de Dume, protestava contra os costumes pagãos de acender luzes nas encruzilhas. No final da Idade Média e durante o século XIV era muito popular o costume de fazer a encomendação das almas, tradição que ainda se mantinha há algumas décadas na freguesia de Adoufe. Um dos lugares escolhidos para essas cerimónias, diz Flávio Gonçalves, eram as encruzilhadas, e daí o facto de localizar, também aí, os retábulos das alminhas. Porém há também alminhas nas margens das estradas, nas entradas de pontes ou nas bermas dos velhos caminhos.
[2] Informação dada pelo Sr. José Alves Facote, de Abambres (Mateus, Vila Real)
[3] Atente-se o facto de a construção da vida de cintura, construída nos anos 80 do séc. XX (que liga a zona da Araucária à zona do Boque, com bifurcação, junto ao campo do Abambres Sport Clube, para as piscinas e a zona da Hortas) ter destruído boa parte da malha de pequenas vias e caminhos que existiam já na Idade Média. Esses caminhos, que se conservaram durante séculos, conheceram alteração aquando da construção da central elevatória de Codessais, em 1956, tendo sido construído um estradão de acesso, a partir do Bairro da Pimenta. Foi igualmente construído um pontão, no rio Corgo, no lugar das Regadas, que dava acesso pedonal, à dita central. Nas décadas de 60 a 80 do séc. XX esse caminho, com variantes de caminhos de “pé-posto”, era utilizado pelas pessoas de Abambres e outros lugares da freguesia de Mateus, que se dirigiam para Vila Real, já que a distância era muito encurtada. Era também essa a “trilha” seguida pelos estudantes de Abambres que, às dezenas, se dirigiam a pé, para a antiga Escola Industrial e Comercial, Liceu Nacional ou Escola de Magistério Primário, de Vila Real. Tal como dezenas de companheiros da freguesia, percorremos este caminho, diariamente, quatro vezes ao dia, durante os 7 anos de frequência do Ensino Secundário.
[4] Esta invocação tem a ver com lenda da aparição de Cristo ao Papa S. Gregório Magno que terá ocorrido quando o Papa celebrava missa na igreja de Santa Cruz de Jerusalém, em Roma. Cristo terá aparecido com a imagem que tinha quando desceu da cruz e ter-lhe-á anunciado que as almas se salvariam do fogo através das orações dos vivos. Refira-se que no Purgatório só estavam as almas que cometeram os chamados pecais venais, de pouco significado.
[5] Felizmente, e mais uma vez por iniciativa particular, a cruz que encimava o monumento foi guardada por um vizinho (o Sr. Júlio da Cunha), o que a terá salvado da destruição ou de possível roubo.
[1] Este facto foi-nos relatado pelo Sr. Luís Barrias, feitor da Casa de Urros, há mais de 35 anos e mais recentemente pelo Sr. José Facote que ainda conheceu um familiar deste homem de Abambres assassinado pelo Guarda Republicana junto à “Vinha do Arame”, da Casa de Urros.
[6] Assim nos informou o Sr. José Alves Facote e ouvimos o mesmo por parte do Sr. Luís Barrias, antigo feitor da Casa de Urros, falecido há cerca de 3 décadas. O Sr. José Facote referiu, igualmente, que tinha caixa de esmolas mas não sabe quem recolhia as moedas. Sabe que havia pessoas de longe que vinham acender lamparinas de azeite e depois a mãe dele (a Srª Ângela) ia lá acendê-las no caso de se apagarem. Quando algum parto corria mal vinham fazer uma promessa.
[7] O termo livrar significava deitar fora as "livras". Depois de um animal, nomeadamente uma vaca parir, havia um prazo razoável para ele deitar fora as livras, ou seja, alguns elementos acesórios do processo reprodutivo que tinham que ser expulsos, sob pena de o animal ter sérias complicações de saúde, como infecções. Havia também a preocupação de não permitir que o animal comesse as livras, o que era entendido como prejudicial à saúde. No caso dos humanos, livrar, significava ter um parto de sucesso. Nos casos mais graves de partos mal sucedidos alguns dos informadores referiram o acto de mandar dar uns toques especiais com o sino na torre da igreja de Mateus, para que as pessoas, ao ouvir, fizessem uma oração a interceder pelo melhor resultado.




















terça-feira, 11 de junho de 2013

O temor dos "malditos franceses" em Mateus e na região de Vila Real em Maio de 1809




 Apesar da vasta bibliografia existente sobre as Guerras Peninsulares pouco ou nada se sabe, ainda, sobre os efeitos concretos da acção dos franceses, a nível de mortos, relativamente aos lugares por onde passavam. 
Esperam-se estudos, no domínio da micro-história, feitos a partir do levantamento dos registos paroquiais, que dêem a conhecer a realidade de cada freguesia, para assim se poder fazer o grande trabalho de síntese.
No concelho de Vila Real, os estudos que empreendemos permitem-nos concluir que as freguesias mais atingidas foram as da (então) Vila, ou seja S. Dinis, com seis mortos e S. Pedro com dezasseis mortos. Refira-se  que a maior parte das mortes ocorreu nos dias 6 a 9 de Maio de 1809 e a maioria delas foi provocada por tiros "que lhe deram os franceses".

 Embora a maioria das pessoas tenha sido morta no centro da Vila houve alguns combates travados no sítio da Raposeira, Quinta de Prados e Quinta de Mata-Cristos, junto ao Rio Tourinhas onde foram mortas três pessoas que foram sepultadas no local da morte, em lugares profanos.

Registámos ainda três pessoas assassinadas na freguesias de Torgueda  (Lugares de Torgueda, Moçães e Menezes), três na freguesia da Campeã (duas que apareceram mortas no lugar das Porqueiras e um soldado que faleceu na lugar de Vila Nova) e um soldado em Adoufe que faleceu num palheiro em Gravelos.

A notícia da chegada dos Franceses,  que os párocos vila-realenses tratam por "malditos", "malvados", etc. causou o pânico entre as populações. Houve residentes de S. Pedro que fugiram para Santo Tomé do Castelo, ou para Além Douro, na esperança de fugir aos franceses tendo alguns deles morrido, muito provavelmente de susto. 


A freguesia de Mateus não foi directamente afectada pela passagem dos franceses. Porém o pânico instalou-se e o pároco de Mateus "temendo algum insulto de maior como tinham praticado por outras paróquias" retirou-se para lugar mais seguro "fugindo à tropa francesa que tinha chegado a Vila Real" - isto segundo as palavras do próprio pároco, Pe. Francisco Baptista. 
Trazemos aqui a transcrição de dois registos paroquiais de óbito, referentes à pessoa de Francisco George, sendo um do pároco de Mateus, freguesia onde o dito morava e outro do pároco de Arroios, freguesia para onde o dito foi levado e onde encontrou sepultura, embora sem acompanhamento do padre. 
Refira-se que embora o lugar de Mateus fosse um lugar meeiro das freguesias de S. Martinho de Mateus e S. João Baptista de Arroios, muito provavelmente nesse ano de 1809, eles pertenciam a Mateus, ou seja era ali que decorriam os baptismos, os casamentos e os óbitos dos paroquianos. Contudo, por causa do "malditos franceses" o nosso conterrâneo Francisco George teve mesmo de ser sepultado em Arroios.

Eis os registos:
 Do registo de óbito de S. Martinho de Mateus:
"Mateus

Francisco George, casado, do lugar de Mateus desta freguesia de São Martinho do mesmo. Faleceu da vida presente só com o sacramento da extrema-unção que dizem lhe administrou o pároco de São João de Arroios onde recorreu por ser também sua freguesia. Faleceu aos onze dias do mês de Maio de mil oitocentos e nove anos e aos doze do mesmo mês e ano foi sepultado em a dita Igreja de São João de Arroios, por não haver clérigo nesta freguesia que se tinha retirado  fugindo à Tropa Francesa  que tinha  chegado  a Vila real temendo algum insulto de maior como tinham praticado por outras paróquias por onde tinham transitado motivo por que foi sepultado na dita Igreja para onde o conduziram dois homens seculares sem acompanhamento de padre algum isto não por lhe pertencer mas por lhe ficar a dita igreja mais perto. Não fez testamento e para constar fiz este termo que assino dia, mês e ano ut supra.

Coadjutor Francisco Baptista"
                                       Registo de óbito de Francisco George
                             (Fonte: Arquivo Distrital de Vila Real, Registos Paroquiais
                                     de óbito, S. Martinho de Mateus, ano de 1809)

Do registo de óbito de S. João de Arroios

"Francisco Gorge

Aos onze de Maio de mil e oito centos e nove faleceu da vida presente Francisco Gorge do lugar de Mateus desta freguesia de São João Baptista de Arroios, com todos os sacramentos, não fez testamento e foi sepultado dentro desta Igreja no dia doze do dito mês e para constar fiz este termo que assinei dia mês era ut supra.
O Pe. Jerónimo de Carvalho Mourão"

* António Adérito Alves Conde (Junho de 2013)
Escrito, por opção do autor, em desacordo com o novo acordo ortográfico.

Este trabalho é parte integrante do projecto "S. Martinho de Mateus - história, memória, património", da autoria de António Adérito Alves Conde.