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sexta-feira, 25 de maio de 2012

A festa do Mártir S. Sebastião, em Mateus (concelho de Vila Real)


A festa do Mártir S. Sebastião, em Mateus.

Os festejos em honra do mártir S. Sebastião têm lugar, na freguesia de Mateus, concelho de Vila Real, no segundo domingo de Julho, apesar de esta festa, no calendário religioso, ocorrer a 20 de Janeiro.
Esta é uma festa da igreja da freguesia, juntamente com a de S. Martinho, e tem lugar nas imediações da igreja matriz e Largo da Doroa, sendo as restantes festas religiosas que ocorrem na freguesia festas do lugar onde são realizadas. E nessa conformidade a festa de Nossa Senhora dos Prazeres, padroeira da capela da Casa de Mateus, tem lugar naquela capela e imediações e a festa de Santo Isidro tem lugar na capela de Santo Isidro e no Largo da Baralha, em Abambres.
Há umas décadas atrás os peditórios, porta a porta (com rol que era passado de comissão em comissão), eram feitos aos moradores pelos mordomos das festas, e abrangiam, geralmente, toda a freguesia, para as festas ditas da igreja. Em relação às festas ditas de lugar, como era a festa de Santo Isidro de Abambres que sempre quis disputar o primeiro lugar das festas da freguesia, o peditório era circunscrito à povoação e respectivos bairros.
São bairrismos, tradições ou simples caprichos que provavelmente tiveram a sua razão de ser, na origem de cada uma das festas, mas que, com o tempo, se tornaram obsoletos e criadores de rivalidades estéreis.  

                                       Imagem de S. Sebastião.


S. Sebastião e o culto sebastiânico
S. Sebastião foi um dos primeiros mártires da Igreja. Como soldado e mártir depressa se tornou um dos santos mais populares, muito conhecido pelos seus milagres e pela invocação da protecção das populações contra a peste. É padroeiro dos arqueiros, dos soldados e dos atletas.
Sebastião pertenceu à guarda do Palácio Imperial, em Roma, e era muito estimado pelo imperador Maximiano que não sabia da sua condição de cristão. Vivia-se num tempo em que os cristãos eram ainda perseguidos. Um dia Sebastião foi denunciado ao imperador. Maximiano considerou-o um traidor mas perdoar-lhe-ia se ele abandonasse a sua crença. Como não o fez foi condenado à morte, sendo o seu corpo atravessado por setas. Ainda conseguiu sobreviver mas viria a ser executado depois tornando-se assim, num dos primeiros mártires cristãos.
A Europa procurou em S. Sebastião a cura para a peste e o culto sebastiânico tornou-se um dos mais fecundos nos tempos medievais e modernos, eles também tristemente assolados por pestes e por guerras.

                                               S. Sebastião, mártir.
Este culto que se espalhou pela Europa medieval foi levado para o “novo mundo”, onde se difundiu, na época moderna, nas possessões portuguesas. Exemplos disso, à partida, são as cidades capitais do Brasil Colonial, S. Sebastião do Rio de Janeiro e de Moçambique colonial, S. Sebastião da ilha de Moçambique.
 Em Portugal temos notícia de duas grandes festas em honra de S. Sebastião, que coincidem com o dia do calendário religioso. Uma em Santa Maria da Feira, a chamada festa das Fogaças (festejada a 20 de Janeiro), que criou um pão típico, símbolo da fartura, por oposição à fome e outra no Couto de Dornelas, em Boticas, onde é feita na rua uma refeição comunitária para comemorar uma promessa feita ao santo em ano de fome.


                          Martírio de S. Sebastião (1536-38 - óleo sobre tela)

O culto a S. Sebastião em Mateus e na região de Vila Real
Também no concelho de Vila Real o culto a S. Sebastião ganhou enorme adesão, ao longo dos tempos, sendo um santo de referência no imaginário popular. As pessoas um pouco mais velhas recordarão certamente como há 40 anos, na maioria das famílias, nas orações colectivas de família  de após ceia, nomeadamente o terço, se invocava diariamente ainda S. Sebastião como advogado da fome, da peste e da guerra. Porém este não será um hábito muito antigo no tempo, segundo Carlos Alberto Ferreira de Almeida (“Ementação das Almas. Rezas da Ceia” in Revista de Etnografia, Junta Distrital do Porto, Vol. III, Tomo 1, Julho de 1964, p. 43) “já que o terço, como reza diária, só deve ter começado a ser pedido nos finais do séc. XIX”, embora antes houvesse “rezas da ceia” e “acções de graças”.
Na grande maioria das freguesias do concelho de Vila Real existiam, já no início do séc. XVIII, de acordo com a Relação de Vila Real de 1721, confrarias com o nome deste santo e isso é, sem dúvida, uma prova dos temores dos homens da Idade Moderna em relação à fome, à peste e à guerra. 

Mateus. Festas do Mártir S. Sebastião - o recolher da procissão.

Curiosamente a nossa freguesia é uma das excepções já que não tinha confraria de S. Sebastião mas tem, pelo menos desde o séc. XVIII, o culto da imagem de S. Sebastião na sua igreja paroquial com altar próprio.
Não sabemos desde quando existem os festejos em honra do mártir S. Sebastião em Mateus mas, provavelmente, tal como a maioria das festas profano/religiosas mais conhecidas, eles devem ser já do primeiro período republicano. Pelo menos na pesquisa feita nos jornais vila-realenses do início do séc. XX a única festa referida, em Mateus, é a de Nossa Senhora dos Prazeres.
A actual festa ao mártir S. Sebastião
Esta festa, que conhecemos desde há perto de cinco décadas, conheceu anos mais complicados em que quase se cingiu à festa religiosa. É um facto que entre as décadas de sessenta e setenta, devido à onda de emigração e à guerra colonial, diversas povoações perderam temporariamente muitos dos seus adultos jovens e diversas festas de aldeia, na região de Vila Real, deixaram de se realizar. Para isso contribuiu também o facto de a hierarquia religiosa não permitir a realização de bailes e outros festejos profanos na noite da véspera da festa religiosa, constituída esta por missa e procissão. A revolução de Abril de 1974 trouxe o fim de uma sociedade policiada e o regresso dos soldados. Os recém-emigrados sem documentação passaram a poder fazer a sua visita anual às terras de origem para participar nas festas de Verão. E as festas voltaram a realizar-se em pleno, sob o signo da liberdade e, mais tarde, com uma novidade – o fim do exclusivo dos mordomos no masculino, facto que veio alargar o leque dos elegíveis para as comissões de realização das festas.
No período da guerra colonial muitas famílias da freguesia que tinham filhos no palco da guerra procuravam a intercessão de S. Sebastião, também ele um soldado, para o bom êxito e saúde dos seus entes queridos. Alguns desses soldados faziam igualmente promessas, a cumprir no regresso, quer de se voluntariar para ser mordomo na festa do “Mártir”, quer de “pegar” no andar do santo mártir. Refira-se que Mateus teve a lamentar a morte de três dos seus filhos, na frente africana, tendo o actual executivo da freguesia feito a devida homenagem inscrevendo os seus nomes na toponímia da freguesia (Ruas de Manuel Matos Guerra, José António dos Santos e António José Carvalho).

             Mateus. Procissão do Mártir S. Sebastião. Andor de Santo António  descendo a Rua da Raia


A partir da década de oitenta, passados os temores da guerra e alguns excessos do período revolucionário, a tipologia do programa dos festejos a S. Sebastião ganhou estabilidade fixando-se em dois dias de festa (sábado e domingo) com baile e animação com conjunto musical nas noites de sábado e domingo, animação com aparelhagem sonora que também coordenava e divulgava informação, missa, procissão, fogo-de-artifício, na noite de domingo e eventualmente jogos populares ou jogo de futebol. Presença habitual, como seria de esperar, tem sido a da Banda de Música de Mateus, que participa na arruada (pelas ruas principais da freguesia), na procissão e, eventualmente, num concerto numa das noites dos festejos; registe-se também a presença habitual do grupo de bombos “Os Trovadores da Raia”. 
Os festejos, apesar das alterações viárias das últimas décadas que disciplinaram as imediações da igreja, continuam a ser feitos no largo do Assento da igreja e no Largo da Doroa.
As várias comissões de festas do “Mártir” passaram também a integrar “mordomas” e a angariação da receita vai seguindo o sistema de peditório porta a porta, embora sem a “obrigatoriedade” de contribuição de outrora, até porque, entretanto, a freguesia ganhou também o carácter de dormitório da cidade (com populações ainda pouco integradas na comunidade local) e deixou de ser a comunidade onde todos se conheciam e quem se auto-excluísse era mal visto. Foi também abandonado o antigo costume de colocação da flor, que se verificava nas décadas de sessenta e setenta em que as simpáticas “meninas da flor” (grupo de voluntárias jovens e bonitas) “chapavam” na lapela dos romeiros um auto-colante com a figura do santo (dantes era mesmo uma pequena flor em papel fixada com um alfinete) contra a entrega de pequeno donativo em dinheiro. Mais recentemente a comissão de festas aproveita também alguns patrocínios de pequenas empresas locais, através da publicidade no cartaz da festa, facto que, infelizmente, tem desvalorizado o seu visual gráfico já de si pouco criativo na maior parte dos casos.
Ao contrário do que era frequente em outras festas das vizinhanças não conhecemos nesta festa de Mateus a existência de pagelas impressas com a imagem do “mártir”. Antigamente, de facto, era muito frequente na nossa região os romeiros trazerem para casa estas pagelas das várias festas ou romarias que frequentavam e não raras vezes (na falta de outros quadros) eram afixadas nas paredes dos aposentos, em sinal de veneração e de protecção.

Os últimos festejos
No ano de 2011, a festa ocorreu nos dias 15,16,17 e 18 de Julho. Como novidade refira-se a introdução, na procissão, do andor de Nossa Senhora dos Prazeres. O programa foi o seguinte:
Sexta-feira – Início dos festejos (tarde); conjunto musical (noite).
Sábado – Arruada pelo grupo de bombos “Os Trovadores da Raia” (manhã); música de aparelhagem sonora (todo o dia); conjunto musical (noite).
Domingo – Alvorada com salva de morteiros (7 horas); arruada pela Banda de Música de Mateus (manhã); Missa solene (tarde); procissão acompanhada pela Banda de Música de Mateus e grupo de bombos “Os Trovadores da Raia” (tarde); concerto com as Bandas de Música de Mateus e da Portela (noite); Fogo-de-artifício e continuação de concerto das bandas de música.
Segunda-feira – Música pela aparelhagem sonora (tarde); Jogos populares (tarde) e encerramento dos festejos.

Tentámos aqui coligir uma perspectiva histórica de uma das mais importantes festas da nossa freguesia suprida, em alguns pormenores, com alguns apontamentos memorialísticos do autor.
                                                                                  Mateus, Maio de 2012.

Nota: É proibida a reprodução total ou parcial do texto e imagens de autor, podendo o texto ser citado, desde que divulgada a fonte.

O presente estudo é parte integrante do projecto de estudo monográfico “S. Martinho de Mateus – história, memória e património”, da autoria de António Adérito Alves Conde.

Por opção não foi escrito de acordo com o Novo Acordo Ortográfico.



domingo, 13 de maio de 2012

O Culto de Nossa Senhora dos Prazeres na freguesia de Mateus (Vila Real)





Esta festa, em honra de Nossa Senhora dos Prazeres, tem lugar na freguesia de Mateus no domingo seguinte ao da Páscoa, ou de Pascoela, a que também chamam de Quasímodo.
Presentemente os festejos constam de missa celebrada na capela da Casa de Mateus (cuja padroeira é Nossa Senhora dos Prazeres) e animação musical. Naquilo que é a única excepção do ano a missa dominical das 11 horas, celebrada na igreja matriz de Mateus, é assim transferida para a capela do Palácio.

Origens da festa de Nossa Senhora dos Prazeres em Mateus
Embora não se sabendo desde quando é celebrada a festa de Nossa Senhora dos Prazeres, na freguesia de Mateus, não temos dúvidas que ela contará mais de três séculos de existência. A instituição do morgadio que deu origem à Casa de Mateus foi feita em 5 de Dezembro de 1641, no reinado de D. João IV, e esse morgadio foi vinculado à Capela da Nossa Senhora dos Prazeres. Trata-se não da actual capela da solar, também ela de invocação a Nossa Senhora dos Prazeres, mas de uma pequena capela actualmente inexistente. Sabe-se que em 1640 foi pedida licença à arquidiocese de Braga para se dizer missa na dita capela.
Pouco mais de um século depois, sabe-se que havia já grande romagem a esta antiga capela, ao tempo em que, por volta de 1746, se deu início à construção da actual e imponente capela, a qual durou mais de 15 anos a construir.
                                Capela de Nossa Senhora dos Prazeres contígua ao Solar de Mateus.
                                                                                  (foto de António Conde)

Nas memórias paroquiais da freguesia de Mateus de 1758 o referido pároco refere que “a esta capela [a antiga] acode muito gente de romagem em dia da mesma Senhora por estar nesse dia exposto o corpo de São Marcos mártir, irmão de S. Marcelino e além deste dia em todo o ano sempre concorre gente ainda que com menor frequência”.                                                           


         A festa de Nossa Senhora dos Prazeres em Mateus no século XX
         Do início do século XX existem vários registos que apontam para a popularidade desta festa. Assim num artigo de Abel Botelho de 1902, publicado na Revista Portugal-Brasil, é feita uma referência aos excessos praticados pela população nos dias da festa, os quais aproveitando a boa vontade dos Condes de Mateus de franquear o acesso à capela no domingo da Pascoela, entravam abusivamente nas propriedades para comer as suas merendas e devassavam-nas. Por essa razão, durante alguns anos, esse acesso foi interdito.
 O jornal “O Distrito de Vila Real”, de 7 de Abril de 1909, dá conta da pouca frequência à festa devido ao frio que grassava.
Por sua vez o jornal “O Vilarealense”, de 15 de Abril de 1909, dava notícia de que a capela deixou de estar aberta aos fiéis no domingo de Pascoela devido aos distúrbios que o povo praticava nas propriedades da Casa de Mateus. O mesmo periódico na sua edição de 27 de Abril de 1911, nada refere em relação á interdição de acesso à capela, embora seja razoável, em função do período revolucionário, que o acesso à capela fosse autorizado, mas faz referência ao facto de haver pouca gente em virtude de os transportadores se terem deslocado para a comício republicano da Campeã.
Em relação aos festejos de 1910 o jornal “Eco dos Tribunais”, de 3 de Abril,  dá notícia da realização da festa “na pitoresca povoação de Mateus a que concorre grande número de pessoas desta Vila Real, que ali vão em passeio, fazendo-se acompanhar do indispensável petisco tão deliciosamente saboreado no campo”.
Este último informe é precioso já que nos desperta a atenção para uma curiosidade etnográfica que sabemos existir em outros lugares do nosso País.
                                                    Imagem de Nossa Senhora dos Prazeres.

Curiosidades nos festejos do domingo de Pascoela
A segunda-feira de Pascoela é conhecida em algumas partes do País por ser o Dia do Bom Verão e ser o dia em que começam as sestas, as quais se prolongam até 8 de Setembro.
 De facto tal não se verifica em Mateus onde, ainda há poucas décadas, o dia de início das sestas era o dia de Santa Cruz que se festeja a 3 de Maio e o dia de início das merendas era o dia 25 de Março.
Neste domingo de Pascoela era comum em muitas terras as pessoas irem para os campos fazer merendas e segundo se dizia esperar o Bom Verão.
O jornal “O Século” de 24 de Abril de 1906 dá-nos conta dos festejos de Nossa Senhora dos Prazeres, nos arredores de Lisboa, fazendo referência ao início das sestas e ao facto de as pessoas irem para os campos comer as suas merendas, respirar ar puro, cantar e confraternizar colocando as suas toalhas merendeiras na relva ou nos bancos dos retiros, sendo as merendas regadas pelo tradicional vinho.

O Culto de Nossa Senhora dos Prazeres em Portugal
Este culto parece ter sido introduzido em Portugal  pelos franciscanos, no final do séc. XVI. Nossa Senhora dos Prazeres é também conhecida por Nossa Senhora das Sete Alegrias e a referência a prazeres, como sinónimo de alegria, dirá respeito aos passos da Anunciação, da saudação de Isabel, do Nascimento de Jesus, da visitação dos Reis Magos, do encontro com Jesus no Templo quando ele conversava com os doutores da Lei, da aparição de Jesus Ressuscitado e da coroação de Maria no Céu.




Estudo histórico de António Conde.